Asleep on a sunbeam
  plágio

a minha vida é este quase-nada:

subir asa norte, descer esplanada.



Escrito por Daniela Goulart às 15h08
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  leitura de domingo

 (imagem: David Hockney - David Graves Pembroke Studios London Tuesday 27th April 1982)

 

Se creen sabios porque han juntado un montón de libros y se los han comido. Me da risa, porque en realidad son buenos muchachos y viven convencidos de que lo que estudian y lo que hacen son cosas muy difíciles y profundas. En el circo es igual, (...), y entre nosotros es igual. La gente se figura que algunas cosas son el colmo de la dicultad, y por eso aplauden a los trapecistas, o a mí. Yo no sé qué se imaginan, que uno se está haciendo pedazos para tocar bien, o que el trapesista se rompe los tendones cada vez que da un salto. En realidad las cosas verdaderamente difíciles son otras tan distintas, todo lo que la gente cree poder hacer a cada momento. Mirar, por ejemplo, o comprender a un perro o a un gato. Esas son las dificultades, las grandes dificultades. Anoche se me ocurrió mirarme en este espejito, y te aseguro que era tan terriblemente difícil que casi me tiro de la cama. Imagínate que te estás viendo a ti mismo; eso tan sólo basta para quedarse frío durante media hora. Realmente ese tipo no soy yo, en el primer momento he sentido claramente que no era yo. Lo agarré de sorpresa, de refilón, y supe que no era yo. Eso lo sentía, y cuando algo se siente... Pero es como en Palm Beach, sobre una ola te cae la segunda, y después otra... Apenas has sentido ya viene lo otro, vienen las palabras... No, no son las palabras, son lo que está en las palabras, esa especie de cola de pegar, esa baba. Y la baba viene y te tapa, y te convence de que el del espejo eres tú. Claro, pero cómo no darse cuenta. Pero si soy yo, con mi pelo, esta cicatriz. Y la gente no se da cuenta de que lo único que aceptan es la baba, y por eso les parece tan fácil mirarse al espejo.

(Julio Cortázar – El Perseguidor)



Escrito por Daniela Goulart às 10h13
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  descoberta de sábado

"A tragédia é um acúmulo de mal entendidos" (Luiz Zerbini - 1987)



Escrito por Daniela Goulart às 07h28
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  em tempo real



Escrito por Daniela Goulart às 08h43
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  mais algumas (todas minhas)

                                             (mirror)

                                                                                                   (bridge)

 

                                                          (f)



Escrito por Daniela Goulart às 16h30
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  esfinge 2

                                                                                         (a foto é minha)



Escrito por Daniela Goulart às 10h41
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  esfinge 1

 

 

Reconciliación tardía


 

—Soy una esfinge.

—Ja ja.

—Bueno, parezco una esfinge, y además soy malísima.

—Yo soy el hermanito de alguien que usted no conoce, y es mentira que me llame Guillermo.

—?

—Vengo porque en la otra cuadra dicen que usted no parece una esfinge, y que se pone furiosa cuando alguien se lo dice.

—?

—Y otra cosa: ¿Cuál es el animal que por la mañana anda a cuatro patas, a mediodía en dos y al anochecer en tres?

—Bueno, yo solamente ando en una y eso es un buen argumento para negarme a responder a preguntas tan llenas de patas.

—Usted es simpática. Le voy a decir la verdad: me llamo Guillermo.

—Yo soy una esfinge.

—Es increíble cómo nos entendemos, ¿verdad, esfinge?

—Hm.

—No seas mala, vamos a jugar.

—Bueno, pero no me hagas más preguntas, no estoy acostumbrada
.

 

 (trecho de Silvalandia, de Julio Cortázar, com ilustração de Julio Silva)



Escrito por Daniela Goulart às 10h31
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Se Caspar David Friedrich fosse fotógrafo e violoncelista...

 



Escrito por Daniela Goulart às 18h04
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Window Dictatorship and Window Rights

(Hundertwasser)

Some people say houses consist of walls. I say houses consist of windows.

When different houses stand next to each other in a street, all having different window types, i.e., window races, for example an Art Nouveau house with Art Nouveau windows next to a modern house with unadorned square windows, followed in turn by a Baroque house with Baroque windows, nobody minds.

But should the three window types of the three houses belong to one house, it is seen as a violation of the racial segregation of windows. Why? Each individual window has its own right to life.

According to the prevailing code, however, if window races are mixed, window apartheid is infringed. Everything is there: racial prejudice, racial discrimination, racial policy, racial ideology, racial barriers, with fateful impact of window apartheid on man. The apartheid of window races must cease. For the repetition of identical windows next to each other and above each other as in a grid system is a characteristic of concentration camps. In the new architecture of satellite towns and in new administration buildings, banks, hospitals and schools, the levelling of windows is unbearable.

Individuals are never identical and defend themselves against these standardising dictates either passively or actively, depending on their constitution. Thus either with alcohol and drug addiction, exodus from the city, cleaning mania, television dependency, inexplicable physical complaints, allergies, depressions and even suicide, or alternatively with aggression, vandalism and crime.

A person in a rented apartment must be able to lean out of his window and scrape off the masonry within arm's reach. And he must be allowed to take a long brush and paint everything outside within arm's reach. So that it will be visible from afar to everyone in the street that someone lives there who is different from the imprisoned, enslaved, standardised man who lives next door.          

   

                                                                                                                 (www.kunsthauswien.com/english/fenster.htm)



Escrito por Daniela Goulart às 09h47
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(imagem: Ben Vautier)

 

 

Livro sobre Nada

(Manoel de Barros)

 

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Tem mais presença em mim o que me falta.

Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

Sou muito preparado de conflitos.

Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.



Escrito por Daniela Goulart às 10h47
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  (continuação)

 

O meu amanhecer vai ser de noite.

Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.

O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.

Meu avesso é mais visível do que um poste.

Sábio é o que adivinha.

Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.

A inércia é o meu ato principal.

Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

Sabedoria pode ser que seja estar numa árvore.

Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.

Peixe não tem honras nem horizontes.

Sempre que desejo contar nada, faço poesia.

Eu queria ser lido pelas pedras.

As palavras me escondem sem cuidado.

Aonde eu não estou as palavras me acham.



Escrito por Daniela Goulart às 10h46
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  (continuação)

 

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

Uma palavra abriu o toupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Que a palavra sirva na boca dos passarinhos.

Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.

Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.

Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.

O artista é um carro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

Por pudor sou impuro.

O branco me corrompe.

Não gosto de palavra acostumada.

A minha diferença é sempre menos.

Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.

Não preciso do fim para chegar. 

Do lugar onde estou já fui embora.



Escrito por Daniela Goulart às 10h46
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Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres 
(Clarice Lispector)
Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para 
todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. 
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não 
queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao 
outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, 
e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam 
armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e 
nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens 
medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. 
Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de 
ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de 
ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa 
morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra 
coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é 
angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso 
nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos 
deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do 
dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a 
luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos 
chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo 
isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
 
 
 
(imagem: Beth Carver - http://www.bethcarverart.com/)


Escrito por Daniela Goulart às 10h33
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Sobre el dolor físico como aguijón metafísico

(J. Cortázar: Rayuela – cap. 83)

Sobre el dolor físico como aguijón metafísico abunda la escritura. A mí todo dolor me ataca con arma doble: hace sentir como nunca el divorcio entre mi yo y mi cuerpo (y su falsedad, su invención consoladora) y a la vez me acerca mi cuerpo, me lo pone como dolor. Lo siento más mío que el dolor o la mera cenestesia. Es realmente un lazo. Si pudiera dibujar mostraría alegóricamente el dolor ahuyentando el alma del cuerpo, pero a la vez daría la impresión de que todo es falso: meros modos de un complejo cuya unidad está en no tenerla.

(imagem: Eric Fischl – The Empress of Sorrow)



Escrito por Daniela Goulart às 17h06
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  Utilitário artístico de última geração

 

Ben Vautier



Escrito por Daniela Goulart às 15h45
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Instrucciones para llorar

(Julio Cortázar - Historias de Cronopios y de Famas)

Instrucciones para llorar. Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa con su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinario consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódico acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena enérgicamente. Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y si esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca. Llegado el llanto, se tapará  con decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia adentro. Los niños llorarán con la manga del saco contra la cara, y de preferencia en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.

(a foto é minha – 01/01/05)



Escrito por Daniela Goulart às 09h45
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  Para Martoca

Old Friend

Every time I've lost another lover
I call up my old friend
And I say let's get together
I'm under the weather
Another love has come to an end
And he listens as I tell him my sad story
And wonders at my taste in men
And we ponder why I do it
And the pain of getting through it
And he laughs and says
“You'll do it again.”
And we sit in a bar and talk ‘'til two
About life and love as old friends do
And tell each other what we've been through
How love is rare and life is strange
Nothing lasts and people change
And I ask him if his life is ever lonely
And if he ever feels despair
And he says he's learned to love it
‘cause that's really all part of it
And it helps him feel the good times when they're there
Yes, we sit in a bar and talk ‘'til two
About life and love as old friends do
And tell each other what we've been through
How love is rare and life is strange
Nothing lasts and people change
And we wonder if I’ll live with any lovers
Or spend my life alone
And the bartender is dozin’
And it's getting time for closin’
And we figure that I’ll go it on my own
But we'll meet the year we're sixty-two
And travel the world as old friends do
And tell each other what we've been through
How love is rare and life is strange
Nothing lasts and people change
Love is rare, life is strange
Nothing lasts, people change

(Words and music by Nancy Ford and Gretchen Cryer - Fiddleback Music Publishing)
 
(imagem: Edward Hopper)


Escrito por Daniela Goulart às 17h40
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  O casamento é uma imoralidade (Apolônio Hilst)

  

O casamento é uma imoralidade. Não é seu maior mal. Porque é também uma vaudevilesca grosseria. Faz do que temos de mais sagrado, o amor, uma coisa legal, isto é, pública e indecente...



Escrito por Daniela Goulart às 21h14
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 (imagem: Lucian Freud retratado por Francis Bacon)

La cucharada estrecha 

(J. Cortázar – Historias de Cronopios y Famas)

Un fama descubrió que la virtud era un microbio redondo y lleno de patas. Instantáneamente dio a beber una gran cucharada de virtud a su suegra. El resultado fue horrible: Esta señora renunció a sus comentarios mordaces, fundó un club para la protección de alpinistas extraviados y en menos de dos meses se condujo de manera tan ejemplar que los defectos de su hija, hasta entonces inadvertidos, pasaron a primer plano con gran sobresalto y estupefacción del fama. No le quedó más remedio que dar una cucharada de virtud a su mujer, la cual lo abandonó esa misma noche por encontrarlo grosero, insignificante, y en un todo diferente de los arquetipos morales que flotaban rutilando ante sus ojos.

El fama lo pensó largamente, y al final se tomó un frasco de virtud. Pero lo mismo sigue viviendo solo y triste. Cuando se cruza en la calle con su suegra o su mujer, ambos se saludan respetuosamente y desde lejos. No se atreven ni siquiera a hablarse, tanta es su respectiva perfección y el miedo que tienen de contaminarse.

 

(foto: Julio Cortázar, do site http://www.juliocortazar.com.ar)



Escrito por Daniela Goulart às 14h58
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  o bestiário de Borges

 

[...] animals are divided into:
(a) those that belong to the Emperor,
(b) embalmed ones,
(c) those that are trained,
(d) suckling pigs,
(e) mermaids,
(f) fabulous ones,
(g) stray dogs,
(h) those that are included in this classification,
(i) those that tremble as if they were mad,
(j) innumerable ones,
(k) those drawn with a very fine camel brush,
(l) others,
(m) those that have just broken a flower vase,
(n) those that resemble flies from a distance.
[...]
attributed to "a certain chinese encyclopedia" in: The Analytical Language of John Wilkins, a short essay by J. L. Borges. It is not entirely clear whether such an encyclopaedia really did exist, or, if not, it was dreamt up by Borges, the guy he quotes, or somewhone else entirely. The term "chinese encyclopedia" has been used as a synonym for "a motley collection of things" or "a failed attempt at systematization" by many people.

(apud: Tiere, die dem Kaiser gehören - mfx.dasburo.com)

(a foto é minha: flagra de um visitante no meu jardim)



Escrito por Daniela Goulart às 11h54
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SLIPPING
           INTO
                  MADNESS
                               IS GOOD
                                           FOR THE
                                                      SAKE OF
                                                                  COMPARISON
                                                                                    (Jenny Holzer)
 
 
 
(imagem: Balthus)


Escrito por Daniela Goulart às 10h48
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Amor 77

(J. Cortázar: Un tal Lucas)

Y después de hacer todo lo que hacen, se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se peinan, se visten, y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son.

 

(imagem: Eric Fischl)



Escrito por Daniela Goulart às 09h45
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  Homenagem a Kundera

 

A Czech requests a visa to emigrate.

The official asks him: ''Where do you want to go?''

''It doesn't matter,'' the man replies.

He is given a globe: ''Please, choose.''

The man looks at the globe, turns it slowly and says: ''Don't you have another globe?''

 

(imagem: Edward Hopper)



Escrito por Daniela Goulart às 17h15
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  Pollock & Rockwell

"Aquele negócio... como é que chama? Ah! Arte..."



Escrito por Daniela Goulart às 10h14
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Pequena coletânea poética dedicada ao violoncelo 

 

VIOLONCELO
Manuel Alcántara

Divina calma del mar
donde la luna dilata
largo reguero de plata
que induce a peregrinar.
En la pureza infinita
en que se ha abismado el cielo,
un ilusorio pañuelo
tus adioses solicita.
Y ante la excelsa quietud,
cuando en mis brazos te estrecho
en tu alma, sobre mi pecho,
melancólico laúd.

 

Queima sândalo e incenso o poente amarelo/ perfumando a vereda, encantando o caminho./ Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo./ A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

(Ruy Espinheira Filho)

  

Violoncello (M. Verunschk)

A louca dama
Deita e luta
Com o seu músico:
Que a mantendo
Por entre as pernas
Vai aprendendo
Músculo a músculo,
O gemer denso
De madeira rouca
A doma intensa
O sexo acústico.

 

  Ô femme douce à la peau de lune
du violoncelle de la nuit
tu sors nue comme une mélodie

(Pierre Chatillon)

 

 The Cello  (Leigh Deacon)

 

Easing its way between my loosening knees

and upward along the inner thigh

until it rests its broad back at their apex;

arms encircling, left cheek whispering

to the polished neck, the bow pleasuring

the strings to melodic moan -

I'd make slow love to this music,

my eyes would close, and I would bend

and breathe beneath its dark, contralto voice.

Do not be surprised to find me

crept behind you and astride your hips

the bow of my arm sweeping across your chest

as I lay my cheek to yours

and sway beneath what music I arouse.

 

 

 

Prelúdio (C. Meireles)

 

Trinta anos sobre a música.

O violoncelo trouxe-lhe a casa,

A janela sem cortina,

Um muro branco,

Uma árvore.

Prelúdio.

 

Trinta anos!

O violoncelo chorava dentro de outra casa.

Outra janela sem cortinas.

Nem muro branco

Nem árvore.

Prelúdio.

 

Pousada a face na mão, pensava:

Trinta anos.

 

Tinham passado trinta anos.

Prelúdio.

 

 



Escrito por Daniela Goulart às 15h40
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Lucas, suas longas caminhadas

(Julio Cortázar)

Todo mundo sabe que a Terra está separada dos outros astros por uma quantidade variável de anos-luz. O que poucos sabem (na realidade, somente eu) é que Margarita está separada de mim por uma quantidade considerável de anos-caracol.

No princípio pensei que se tratava de anos-tartaruga, mas tive que abandonar essa unidade de medida demasiadamente lisonjeira. Por pouco que uma tartaruga caminhe, eu teria acabado por chegar até Margarita; em compensação, porém, Osvaldo, meu caracol preferido, não me deixa a menor esperança. Sabe-se lá quando  se iniciou a caminhada que  o foi distanciando imperceptivelmente do meu sapato esquerdo, logo depois que o havia orientado com extrema precisão no rumo que o levaria a Margarita. Repleto de alface fresca, cuidado e amorosamente atendido, seu primeiro avanço foi promissor, e eu me disse esperançosamente que antes que o pinheiro do pátio superasse a altura do telhado, os prateados cornos de Osvaldo entrariam no campo visual de Margarita para levar-lhe minha mensagem simpática; enquanto isso, daqui podia ser feliz imaginando sua alegria ao vê-lo chegar, a agitação de suas tranças e seus braços.

Talvez todos os anos-luz sejam iguais, não porém os anos-caracol, e Osvaldo não merece mais minha confiança. Não é que se detenha, pois me foi possível verificar por seu rastro aregentado que prossegue sua caminhada e mantém a boa direção, embora isso suponha para ele subir e descer incontáveis paredes ou atravessar inteira uma fábrica de massas. Mas custa-me muito comprovar essa meritória exatidão, e duas vezes fui agarrado por guardas enfurecidos a quem precisei dizer as piores mentiras, posto que a verdade me teria valido uma chuva de porradas. O triste é que Margarita, sentada em uma poltrona de veludo rosa, espera-me do outro lado da cidade. Se em vez de Osvaldo eu me houvesse servido dos anos-luz, já teríamos netos; quando, porém, se ama longa e suavemente, quando se quer chegar ao término de uma paulatina esperança, é lógico que se prefiram os anos-caracol. É muito difícil,  depois de tudo, decidir quais são as vantagens e quais os inconvenientes dessas opções.



Escrito por Daniela Goulart às 15h29
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Se um viajante numa noite de inverno (Italo Calvino)

"VOCÊ vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: "Não, não quero ver televisão!". Se não ouvirem, levante a voz: "Estou lendo! Não quero ser perturbado!". Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: "Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!". Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.

Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas. Pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado, é claro.

Com certeza, não é fácil encontrar a posição ideal para ler. Outrora, lia-se em pé, diante de um atril. Era hábito permanecer em pé, parado. Descansava-se assim, quando se estava exausto de andar a cavalo. Ninguém jamais pensou em ler a cavalo; agora, contudo, a idéia de ler na sela, com o livro apoiado na crina do animal, talvez preso às orelhas dele por um arreio especial, parece atraente a você. Com os pés nos estribos, deve-se ficar bastante confortável para ler; manter os pés levantados é condição fundamental para desfrutar a leitura.

Pois bem, o que está esperando? Estique as pernas, acomode os pés numa almofada, ou talvez duas, nos braços do sofá, no encosto da poltrona, na mesinha de chá, na escrivaninha, no piano, num globo terrestre. Antes, porém, tire os sapatos se quiser manter os pés erguidos; do contrário, calce-os novamente. Mas não fique em suspenso, com os sapatos numa das mãos e o livro na outra.

Regule a luz para que ela não lhe canse a vista. Faça isso agora, porque, logo que mergulhar na leitura, não haverá meio de mover-se. Tome cuidado para que a página não fique na sombra – um amontoado de letras pretas sobre um fundo cinzento, uniformes como um bando de ratos –; mas esteja atento para não receber uma luz demasiado forte que, ao refletir-se no branco impiedoso de papel, corroa a negrura dos caracteres como a luz do meio-dia mediterrâneo. Procure providenciar tudo aquilo que possa vir a interromper a leitura. Se você fuma, deixe os cigarros e o cinzeiro ao alcance da mão. O que falta ainda? Precisa fazer xixi? Bom, isso é com você.

Escrito por Daniela Goulart às 15h15
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  (continuação)

 

Não que você espere algo de especial deste livro em particular. Você é daquelas pessoas que, por princípio, já não esperam nada de nada. Há tanta gente, mais jovem ou mais velha que você, que vive à espera de experiências extraordinárias – dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, de tudo que o amanhã guarda em si. Você não. Você já aprendeu que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. É essa a conclusão a que chegou, tanto na vida privada como nas questões gerais e nos problemas do mundo. E quanto aos livros? Aí está: justamente por ter renunciado a tantas coisas, você acredita que seja certo conceder a si mesmo o prazer juvenil da expectativa num âmbito bastante circunscrito, como este dos livros, em que as coisas podem ir bem ou mal, mas em que o risco da desilusão não é grave.

Pois então você leu num jornal que foi lançado Se um viajante numa noite de inverno, o novo livro de Italo Calvino, que não publicava nada havia vários anos. Passou por uma livraria e comprou o volume. Fez bem.

Já logo na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sidos Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade Do Preço, dos Livros Idem Quando Forem Reeditados Em Coleções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém, Dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem

os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler,
os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
os Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

Bom, foi enfim possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto calculável num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já Seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.

Escrito por Daniela Goulart às 15h13
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  (continuação)

 

Você se livra com rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela dos Novidades Em Que O Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades De Autores Ou Temas Completamente Desconhecidos (ao menos por você) e definir a atração que eles exercem sobre você segundo suas necessidades e desejos de novidade e não-novidade (da novidade que você busca no não-novo e do não-novo que você busca na novidade).

Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de Se um viajante numa noite de inverno, pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo.

Você ainda lançou sobre os livros em redor um olhar desgarrado (ou melhor: os livros é que o olharam com um olhar perdido como o dos cães nos cercados do canil municipal quando vêem um ex-companheiro ser levado na coleira pelo dono que veio resgatá-lo) e, enfim, saiu.

Um livro recém-publicado lhe dá um prazer especial, não é apenas o livro que você está carregando, é também a novidade contida nele, que poderia ser apenas a do objeto saído há pouco da fábrica, é a beleza diabólica com a qual os livros se adornam, que dura até que a capa amarelece, até que um véu de poeira se deposita nas bordas das folhas e os cantos da lombada se rasgam, no breve outono das bibliotecas. Você espera encontrar sempre a novidade verdadeira, que tendo sido novidade uma vez continue a sê-lo para sempre. Ao ler um livro recém-saído, você se apropria dessa novidade do primeiro instante, sem precisar depois persegui-la, encurralá-la. Será desta vez que isso acontecerá? Nunca se sabe. Vejamos como o livro começa.

Talvez você o tenha folheado ainda na livraria. Ou talvez não, porque ele estava envolto em celofane. Agora você está num ônibus, em pé, no meio de muita gente, pendurado à barra de apoio por um dos braços, e com a mão que está livre você começa a desfazer o embrulho; seus gestos são simiescos, como os de um macaco que deseja ao mesmo tempo descascar uma banana e manter-se agarrado ao galho. Cuidado, você está acotovelando os vizinhos; ao menos peça desculpas.

Talvez o vendedor da livraria não tenha embrulhado o livro, apenas o tenha colocado numa sacola. Isso simplifica as coisas. Você está ao volante do carro, parado num semáforo, tira o livro da sacola, arranca o invólucro transparente, começa a ler as primeiras linhas. Você é atingido por uma tempestade de buzinas; abriu o sinal, e você está obstruindo o trânsito.

Você está sentado a sua mesa de trabalho, e o livro por acaso está ali entre os papéis do escritório; em dado momento você afasta um dossiê, e o livro surge bem debaixo de seus olhos; você o abre com ar distraído, apóia os cotovelos na mesa, encosta os punhos nas têmporas e parece estar concentrado no exame de um caso, mas na verdade explora as primeiras páginas do romance. Depois, pouco a pouco, encaixa a coluna vertebral no espaldar, ergue o livro até a altura do nariz, inclina a cadeira para trás equilibrando-a nas pernas posteriores, abre uma gaveta lateral da escrivaninha para apoiar os pés – a posição dos pés durante a leitura é da maior importância – ou, ainda, estica as pernas e as apóia na mesa, sobre os processos não resolvidos.

Escrito por Daniela Goulart às 15h12
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  (continuação)

 

Mas isto não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial), mas para com o próprio livro. Pior ainda se você pertence – por amor ou obrigação – àquele grupo de pessoas para as quais é coisa séria trabalhar, realizar – intencionalmente ou não – uma atividade necessária – ou pelo menos útil – tanto para os outros como para si mesmo; nesse caso o livro que você levou para o local de trabalho como uma espécie de amuleto ou talismã o expõe a tentações intermitentes que a cada vez subtraem alguns segundos do objeto primeiro de sua atenção, seja este uma perfuradora de cartões, seja os queimadores de um fogão, seja as alavancas de comando de um buldôzer, seja um paciente deitado com as vísceras expostas numa mesa de cirurgia.

Em suma, é preferível que você ponha um freio a essa impaciência e aguarde para abrir o livro quando estiver em casa. Aí sim. No quarto, tranqüilo, você abre o livro na primeira página – não, na última, ante você quer saber a extensão dele. Não, por sorte não é muito longo. Hoje em dia, escrever romances longos é um contra-senso: a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória, e logo desaparecem. A continuidade do tempo só pode ser reencontrada nos romances da época em que o tempo, conquanto não parecesse imóvel, ainda não se estilhaçava. Um período de cerca de cem anos.

Revire o livro entre as mãos, percorra o texto da contracapa, das orelhas, são frases genéricas que não dizem muito. Melhor isso que um discurso que pretenda sobrepor-se de forma indiscreta àquele que o livro deve comunicar diretamente, àquilo que, pouco ou muito, você mesmo extrairá dele. É certo que essa passeio ao redor do livro – ler o que está fora antes de ler o que está dentro – também faz parte do prazer da novidade, mas, como todo prazer preliminar, este também deve durar um tempo conveniente e pretender apenas conduzir ao prazer mais consistente, à consumação do ato, isto é, à leitura do livro propriamente dito.

Agora sim, você está pronto para devorar as primeiras linhas da primeira página. Está preparado para reconhecer o inconfundível estilo do autor. Não você não o está reconhecendo. Mas, pensando bem, quem afirmou que este autor tem estilo inconfundível? Pelo contrário: sabe-se que é um autor que muda muito de um livro para outro. E é justamente nessas mudanças que se pode reconhecê-lo. No entanto, parece que este livro nada tem a ver com os outros que ele escreveu, pelo menos com aqueles dos quais você se lembra. Está desapontado? Vejamos. De início você talvez experimente certo desnorteamento, como o que sobrevém quando somos apresentados a uma pessoa que pelo nome parecia identificar-se com determinada fisionomia, mas que, ao tentarmos fazer coincidir os traços do rosto que vemos com os daquele de que nos lembramos, percebemos não combinar. Mas depois você prossegue na leitura e percebe que de algum modo o livro se deixa ler, independentemente daquilo que você esperava do autor. O livro é o que desperta sua curiosidade; pensando bem, você até prefere que seja assim, deparar com algo que ainda não sabe bem o que é."



Escrito por Daniela Goulart às 15h12
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A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir. E para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.

José Saramago (Viagem a Portugal)



Escrito por Daniela Goulart às 15h09
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The Disciple (Oscar Wilde)

When Narcissus died the pool of his pleasure changed from a cup of sweet waters into a cup of salt tears, and the Oreads came weeping through the woodland that they might sing to the pool and give it comfort.

And when they saw that the pool had changed from a cup of sweet waters into a cup of salt tears, they loosened the green tresses of their hair and cried to the pool and said, `We do not wonder that you should mourn in this manner for Narcissus, so beautiful was he.'

`But was Narcissus beautiful?' said the pool.

`Who should know that better than you?' answered the Oreads. `Us did he ever pass by, but you he sought for, and would lie on your banks and look down at you, and in the mirror of your waters he would mirror his own beauty.'

And the pool answered, `But I loved Narcissus because, as he lay on my banks and looked down at me, in the mirror of his eyes I saw ever my own beauty mirrored.'

Escrito por Daniela Goulart às 15h03
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Do Desejo (Hilda Hilst)

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.


 



Escrito por Daniela Goulart às 11h53
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  PROTECT ME FROM WHAT I WANT

Some Truisms from Jenny Holzer:

                A LITTLE KNOWLEDGE CAN GO A LONG WAY

A LOT OF PROFESSIONALS ARE CRACKPOTS

A SINGLE EVENT CAN HAVE INFINITELY MANY INTERPRETATIONS

ABSOLUTE SUBMISSION CAN BE A FORM OF FREEDOM

ABUSE OF POWER COME AS NO SURPRISE

A STRONG SENSE OF DUTY IMPRISONS YOU

TRUE FREEDOM IS FRIGHTFUL

WORDS TEND TO BE INADEQUATE

ANY SURPLUS IS IMMORAL

AMBIVALENCE CAN RUIN YOUR LIFE

ABUSE OF POWER COMES AS NO SURPRISE

ACTION CAUSES MORE TROUBLE THAN THOUGHT

ALIENATION PRODUCES ECCENTRICS OR REVOLUTIONARIES

ALL THINGS ARE DELICATELY INTERCONNECTED

AT TIMES INACTIVITY IS PREFERABLE TO MINDLESS FUNCTIONING

BOREDOM MAKES YOU DO CRAZY THINGS

CONFUSING YOURSELF IS A WAY TO STAY HONEST

DECENCY IS A RELATIVE THING

DEVIANTS ARE SACRIFICED TO INCREASE GROUP SOLIDARITY

DREAMING WHILE AWAKE IS A FRIGHTENING CONTRADICTION

EATING TOO MUCH IS CRIMINAL

ENJOY YOURSELF BECAUSE YOU CAN'T CHANGE ANYTHING ANYWAY

EVEN YOUR FAMILY CAN BETRAY YOU

EVERYONE'S WORK IS EQUALLY IMPORTANT

EXPIRING FOR LOVE IS BEAUTIFUL BUT STUPID

FAKE OR REAL INDIFFERENCE IS A POWERFUL PERSONAL WEAPON

FATHERS OFTEN USE TOO MUCH FORCE

GOOD DEEDS EVENTUALLY ARE REWARDED

GOING WITH THE FLOW IS SOOTHING BUT RISKY

GRASS ROOTS AGITATION IS THE ONLY HOPE

HIDING YOUR MOTIVES IS DESPICABLE

HUMANISM IS OBSOLETE

HUMOR IS A RELEASE



Escrito por Daniela Goulart às 11h45
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  (continuação)

IF YOU AREN'T POLITICAL YOUR PERSONAL LIFE SHOULD BE EXEMPLARY

INHERITANCE MUST BE ABOLISHED

IT IS MAN'S FATE TO OUTSMART HIMSELF

IT'S IMPORTANT TO STAY CLEAN ON ALL LEVELS

KILLING IS UNAVOIDABLE BUT IS NOTHING TO BE PROUD OF

LACK OF CHARISMA CAN BE FATAL

LOVING ANIMALS IS A SUBSTITUTE ACTIVITY

MEN ARE NOT MONOGAMOUS BY NATURE

MOTHERS SHOULDN'T MAKE TOO MANY SACRIFICES

MUCH WAS DECIDED BEFORE YOU WERE BORN

MURDER HAS ITS SEXUAL SIDE

MYTHS CAN MAKE REALITY MORE INTELLIGIBLE

OFTEN YOU SHOULD ACT LIKE YOU ARE SEXLESS

PEOPLE WHO DON'T WORK WITH THEIR HANDS ARE PARASITES

PRIVATE PROPERTY CREATED CRIME

RAISE BOYS AND GIRLS THE SAME WAY

REVOLUTION BEGINS WITH CHANGES IN THE INDIVIDUAL

ROMANTIC LOVE WAS INVENTED TO MANIPULATE WOMEN

SLIPPING INTO MADNESS IS GOOD FOR THE SAKE OF COMPARISON

SLOPPY THINKING GETS WORSE OVER TIME

STRONG EMOTIONAL ATTACHMENT STEMS FROM BASIC INSECURITY

STUPID PEOPLE SHOULDN'T BREED

 TAKING A STRONG STAND PUBLICIZES THE OPPOSITE POSITION

THE IDEA OF REVOLUTION IS ADOLESCENT FANTASY

THE IDEA OF TRANSCENDENCE IS USED TO OBSCURE OPPRESSION

THE MOST PROFOUND THINGS ARE INEXPRESSIBLE

TIMIDITY IS LAUGHABLE

TORTURE IS BARBARIC

WHEN SOMETHING TERRIBLE HAPPENS PEOPLE WAKE UP

WISHING THINGS AWAY IS NOT EFFECTIVE

YOU ARE A VICTIM OF THE RULES YOU LIVE BY

YOUR OLDEST FEARS ARE THE WORST ONES

 

 



Escrito por Daniela Goulart às 11h45
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Papéis (Cecília Meireles)
(V)

Mas por que sempre lembrar essas coisas longínquas?
A verdade, porém, é que há uns dias inesquecíveis,
Uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,
Por muitos anos que vivamos,
Apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...
Vivemos tudo – o humano e universal -
Nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.

Todos os dias assim, de chuvinha fina,
Penso em velhas cenas da infância:
A tarde em que comia um pedaço de maçã
E conheci o arco-íris,
O livro em que estudava francês,
Com uma gravura de crianças felizes, que riam para o ar:
La pluie;
A minha solidão com tesouras, cola e cartolina:
“Brinquedos para os dias de chuva...”

Tudo isso vem à minha memória, como visitantes inesperados.
Interrompo o que estou fazendo, tenho uma pena imensa de mim.
Depois, penso em velhos poemas chineses, curtos e leves.

Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais.



Escrito por Daniela Goulart às 11h30
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